Foto: Rian Lacerda (Diário)
Bombeiros em atuação durante o combate ao incêndio no colégio Marista registrado em dezembro de 2025. Trabalho da corporação foi realizado por 70 bombeiros, com auxilio de corporações da região central.
Após o incêndio no Colégio Marista Santa Maria, em 26 de dezembro de 2025, voltou ao debate a necessidade de o Corpo de Bombeiros Militar da cidade contar com um caminhão com autoescada mecânica, a popular Magirus. Há articulações políticas para a aquisição de um novo equipamento, já que o caminhão que operava como sistema foi aposentado em 2015. Para o coronel José Carlos Sallet de Almeida e Silva, comandante do 4º Batalhão de Bombeiro Militar (4º BBM), uma Magirus não é considerada prioridade, no momento, no município.
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Segundo o comandante, todo equipamento que contribua para o atendimento de emergências é bem-vindo, porém a autoescada mecânica não representa, atualmente, a principal necessidade da corporação em Santa Maria. Ele esclarece que esse tipo de viatura é voltado principalmente ao salvamento de pessoas em edificações de grande altura.
- Conforme a legislação de prevenção contra incêndios vigente, edificações com mais de 12 metros de altura, o equivalente a seis ou sete andares, elas são obrigadas a possuir escadas protegidas, à prova de fogo e fumaça. Essas estruturas permitem que os ocupantes alcancem uma rota segura de evacuação em caso de incêndio, reduzindo a dependência de equipamentos externos para resgate em altura - explica o comandante.
Sallet também destacou as limitações operacionais de uma autoescada mecânica. Trata-se de uma viatura de grande porte e elevado peso, que não consegue trafegar ou manobrar em qualquer via urbana. De acordo com ele, a estrutura viária de Santa Maria não comporta adequadamente esse tipo de veículo.

- Uma autoescada mecânica não conseguiria por exemplo, acessar o local do incêndio no Colégio Marista devido à largura das vias e às dificuldades de manobra - detalha Sallet.
Além disso, o comandante ressaltou que não há registros, nos últimos 20 anos, de vítimas feridas ou óbitos em edificações de grande altura na cidade, o que reforça a avaliação de que o investimento, estimado em cerca de R$ 11,5 milhões, não teria utilização prática no cenário atual.
Segundo o comandante, caso haja interesse político na aquisição do equipamento, seria necessário, antes, preparar a cidade para isso, com adequações na infraestrutura urbana, como restrições de estacionamento em determinadas vias e reforço de galerias subterrâneas, além do aumento do efetivo para operar a viatura com segurança, já que o caminhão com autoescada precisa de bombeiros treinados especificamente para utilizar o equipamento.
O coronel lembra que Santa Maria já contou com um caminhão com escada mecânica no passado. O veículo, um Mercedes da década de 1970, possuía uma escada Metz de 24 metros, capaz de atender prédios de até oito andares. O veículo foi utilizado até 2015, quando deixou de operar por falta de peças de reposição.
Ao comparar custos, o comandante explicou que, com o valor de um caminhão com autoescada mecânica, seria possível adquirir vários caminhões autobomba-tanque, cada um com custo aproximado de R$ 2 milhões, ampliando de forma mais efetiva a capacidade de resposta da corporação em diferentes tipos de ocorrências.

Sobre o crescimento vertical da cidade, o coronel explicou que novas edificações precisam seguir exigências rigorosas de prevenção contra incêndios, incluindo escadas protegidas que garantem a evacuação segura dos ocupantes.
Por fim, o comandante afirmou que a principal necessidade atual do Corpo de Bombeiros em Santa Maria é o aumento do efetivo operacional. Ele informou que o governo do Estado autorizou o ingresso de 400 novos bombeiros em duas etapas, sendo 200 previstos para 2026, mas ressaltou que ainda é necessário ampliar o quadro para atender adequadamente a demanda da cidade e da região.
O que diz o governo do estado
Em entrevista ao programa Central CDN, da rádio CDN e TV Diário, na manhã desta sexta-feira (9), o governador Eduardo Leite afirmou que o incêndio no Colégio Marista Santa Maria foi combatido com estrutura adequada e sem feridos, destacando o trabalho de cerca de 70 bombeiros. Ele ressaltou que seu governo realizou o maior investimento da história na segurança pública do Estado, com aumento de viaturas, equipamentos e a aquisição das duas autoescadas atualmente existentes no estado, em Porto Alegre e Caxias do Sul. Sobre a compra de um caminhão com autoescada mecânica para Santa Maria, Leite disse que não há pedido formal do Corpo de Bombeiros e que é necessário priorizar investimentos, já que os recursos são limitados. Também destacou que o total investido em segurança pública supera R$ 2 bilhões.
Articulação política busca recurso para compra de caminhão com autoescada mecânica
Após o incêndio que destruiu parte do Colégio Marista Santa Maria, iniciou-se uma articulação política suprapartidária para viabilizar a compra de um caminhão com escada Magirus para o Corpo de Bombeiros do município. A mobilização partiu do vereador Tubias Callil (PL), que buscou apoio junto aos deputados Luciano Zucco (PL) e Paulo Pimenta (PT). A partir desses contatos, o líder da bancada gaúcha no Congresso, Marcelo Moraes (PL), encaminhou ofício ao governador em exercício, Gabriel Souza (MDB), solicitando a aquisição do equipamento.
Segundo os parlamentares, uma das alternativas é utilizar parte dos R$ 34 milhões em emendas já aprovadas pela bancada gaúcha para a área da segurança pública, além de recursos de fundos estaduais, como o Funrigs. Tubias Callil destacou que a iniciativa simboliza a união de forças entre políticos de diferentes partidos em torno de uma demanda histórica da cidade, ressaltando que a escada Magirus é fundamental para o atendimento de incêndios em prédios de grande porte e que, com a cooperação entre os entes políticos, Santa Maria pode finalmente contar com o equipamento.
O que diz a AVTSM
O presidente da Associação de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Flávio Silva, afirmou que ficou preocupado com o desabafo do comandante do Corpo de Bombeiros ao tratar da não priorização da autoescada mecânica. Embora reconheça os argumentos técnicos apresentados, Silva pondera que a discussão não pode se limitar a um único cenário, como o incêndio no Colégio Marista.
- Santa Maria possui diversos prédios residenciais de grande altura e, em uma situação extrema, um incêndio pode comprometer rotas de fuga internas, deixando moradores sem alternativa segura de evacuação. Não se pode admitir que pessoas fiquem à mercê do fogo, esperando o incêndio ser controlado, sem meios adequados de salvamento - avalia.
O presidente da AVTSM também critica o histórico de flexibilizações na legislação de prevenção contra incêndios no Rio Grande do Sul, lembrando que prorrogações sucessivas feitas pelo governo estadual contribuíram para atrasos e fragilidades no sistema preventivo. Ele defende que o debate vá além de Bombeiros e vereadores, envolvendo a sociedade civil organizada, para evitar a politização do tema. Nesse sentido, anunciou que irá provocar a realização de uma audiência pública para discutir as reais necessidades da corporação, incluindo investimentos e adequações urbanas.
- Salvar vidas exige prevenção e investimento. Mesmo que o custo seja alto, se uma vida for preservada, o investimento se justifica. Tragédias continuam acontecendo, e depois que elas ocorrem, não adianta perguntar o que poderia ter sido feito - conclui.